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Deficiente visual, servidor público fala sobre importância da autonomia e autoestima

Há 31 anos Manoel Pinto de Moraes é servidor público estadual, tendo iniciado suas atividades na antiga Fundação Cultural, hoje Secretaria de Estado de Cultura
Cida Rodrigues | SEC-MT

Meneghini | Gcom-MT
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O servidor público Manoel Pinto de Moraes tem uma história de prestação de serviço à população que destaca sua simpatia e competência na superação de uma deficiência física. Nascido em Cuiabá, Manoel perdeu a visão com seis anos de idade por causa de sarampo. Como na época não existia nenhuma instituição de atendimento a deficientes visuais no Estado, seus pais o encaminharam para a capital de Mato Grosso do Sul, Campo Grande – a cidade mais próxima com esse tipo de atendimento. Lá ele pode aprender e ser alfabetizado pelo sistema braile no Instituto Sul-matogrossense para Cegos. 

Mesmo sozinho, sem a família, o pequeno Manoel já fazia idéia de que aquela era uma oportunidade e sempre se sentiu grato por isso. “No dia que meu pai me mandou ele ficou com o coração na mão, mas eu disse a ele que iria aprender e foi o que fiz. E hoje estou aqui dando um retorno pra sociedade”, relata.

Há 31 anos, Manoel é auxiliar de desenvolvimento econômico do Governo do Estado, tendo iniciado suas atividades na antiga Fundação Cultural, hoje Secretaria de Estado de Cultura. Sempre atuando na Biblioteca Pública Estadual Estevão de Mendonça, ele é responsável pela catalogação dos livros em braile. Também recebe e orienta os deficientes visuais frequentadores do espaço, com indicação de livros, orientações sobre o braile e principalmente com troca de ideias. 

“Chegam deficientes visuais de vários lugares aqui, do Instituto dos Cegos, de outros municípios, e todos gostam muito de conversar e receber as dicas do Manoel”, conta a também servidora pública Carmem Tereza Costa Carvalho, que trabalha ao lado de Manoel na catalogação dos livros em braile. Quando o livro chega do Ministério da Educação ou de outras instituições que doam à biblioteca, é Carmem que faz a leitura ditando todo o processo da catalogação para o Manuel converter em braile.

O acervo de livros para deficientes visuais da Biblioteca Estevão de Mendonça conta com livros didáticos, jurídicos, romances e histórias infantis, dentre outros. Como a biblioteca possui um equipamento de impressão em braile, Manoel e Carmem já conseguiram catalogar 100 livros por dia.

A Biblioteca oferece ainda curso do sistema braile e o soroban (uma régua utilizada para cálculos matemáticos) a professores de todo o Estado, transformando-os em multiplicadores e possibilitando a inclusão dos estudantes mato-grossenses com deficiência visual. “O Manoel transmite muito bem e os participantes do curso saem lendo e escrevendo em braile”, elogia Carmem. 

Morador do bairro CPA IV, Manoel vai e volta do trabalho todos os dias de transporte público. Atualmente, a biblioteca disponibiliza um auxiliar que o busca e o leva até o ponto de ônibus nas proximidades do Palácio da Instrução – que é onde fica a biblioteca, no centro da capital. Para descer do ônibus, o motorista o avisa quando chega no ponto correto. “Manuel é inteligente, ele sabe se virar. O maior problema é a acessibilidade”, comenta a colega Carmem. “Apesar dos obstáculos para ir e vir, Manoel é esforçado, pontual e presta um serviço essencial à população”.

AUTONOMIA E AUTOESTIMA

E o servidor da biblioteca não reclama mesmo de sua cegueira. Em vez disso, se orgulha de enfrentar seus desafios e de conseguir ser exemplo para outras pessoas, deficientes ou não. “Dou  dicas pra familiares de outros cegos, sugiro a melhor forma de alguém me ajudar ao me pegar pelo braço, já teve gente que ensinei na hora o braile”, explica Manoel. 

A descriminação e o preconceito geram atitudes que mais atrapalham. “Há famílias que em vez de incentivar, escondem ou exclui a pessoa deficiente. Tratam como se fosse um coitado. E não é isso. Ele tem condições de viver a vida normalmente.” Para ele, o apoio da família foi fundamental para sua autoestima e autonomia. 

Em sua casa – que divide com a esposa também cega – o que precisa é que tudo esteja sempre no mesmo lugar. “Além dos outros sentidos aguçados, o deficiente visual acaba desenvolvendo um senso de organização apurado”, comenta, acrescentando a importância da bengala como acessório essencial em sua vida.  “Nós deficientes visuais dependemos de nossa bengala, nossa bengala nos orienta”. 

Na Biblioteca Estadual, seu trabalho é elogiado por todos. Colegas e visitantes reconhecem o valioso papel desempenhado pelo servidor para a integração e a independência de outros deficientes visuais à sociedade.  Como ele mesmo diz, ler um livro é uma ótima forma de autonomia. E Manoel ajuda a garantir essa possibilidade a muita gente e tem toda razão de se orgulhar por isso. “Eu sempre gostei do que faço e sempre falo, pois estou servindo a comunidade, ajudando as pessoas que precisam e estou fazendo tudo de coração”, finaliza.